sábado, 11 de abril de 2015

8.

DOCE (conto)

Era uma vez ... dois velhos. Casados há mais tempo do que o mundo foi criado. Eram felizes sim, felizes, velhos e casados. Viviam numa casa sombria, triste, empoeirada, cheia de plantas sobre a telha, tinha um gata safada, pequenos roedores e alguns parasitas que já eram considerados da família. Eles se conheceram quando ela estava doente, em juventude, numa clínica, foi amor à primeira vista. Sua vida toda foi um em função do outro, iam dormir juntos, Vozete tricotava e ele segurava o barbante, Vozete lavava e ele enxugava, ele trocava a lâmpada Vozete segurava a escada para que ele não caísse, eram um cuidado que só. O que ele dizia era que quando novo já trabalhou de tudo, pedreiro, padeiro, atleta, patinador de gelo e até fez uns bicos informais como médico numa clínica psiquiátrica. Já ela, nunca estava em casa de tão doente que ficava. Eles tinham filhos, tinham amigos e animais mas todos foram embora exceto eu e uma velha amiga de Vozete.  
            Damiana, amiga da velha senhora, em sua juventude era linda, lábios carnudos, nariz largo, cabelos longos, negros e sedosos, típicos de descendentes de índios, negros e portugueses, pele clara, rígida, corpo sarado com curvas de deixar qualquer um babando em seus pés. Mesmo com o passar dos anos, a amiga da velha senhora tinha continuado belíssima, exceto seus seios, um pouco murchos, mas nada que um sutiã não suspendesse. Elas se conheceram ainda na infância mas pouco se viam, contudo, quando viam-se, era uma alegria retada, brincavam juntas, comiam juntas, tomavam banho juntas, até deram seu primeiro beijo juntas com dois garotinhos do 6º ano. Na juventude, com seus 18 anos, a velha senhora, que anteriormente era uma jovem senhorita, conheceu o senhor ao qual veio a ser seu marido, apresentou a sua amiga e ficaram felizes, pois, uma delas casaria. A velha senhora passou anos fora, com isso a relação entre elas foi cortada pela distância, algumas décadas depois Vozete voltou, com seu marido e filhos a fim de rever sua amiga, que se tonara uma velha.
            Na sexta-feira santa, que de santa só tem o nome, a doce velhinha deu um jantar para seus filhos e a amiga do casal. Fizeram uma comida de lamber os beiços, arroz branco, caruru, vatapá, feijão fradinho, frango cozido, moqueca de peixe e um vinho do mais pior que existe, São Jorge, daqueles que é tiro e queda. Vestido branco, encardido e uma sandália gasta ornamentava a Vozete, seu marido, sempre fino e elegante trajava-se com um paletó preto, blusa branca, gravata borboleta vermelha, sapatos pretos brilhantes e um relógio de ouro, oh mulher boa, fazia questão de deixar o seu velhinho um gato. O jantar fora marcado para ás 19:00, ninguém chegou, mas já sabemos que ninguém chega cedo. Passou-se 19:30; 19:50; 20:00; 20:10 e ninguém chegou ainda, logo após a campainha tocou, foi Damiana.
            A mesa de jantar era comprida, como não havia muitos convidados, todos sentaram-se próximos, o velhote no centro, Vozete em um lado e Damiana no outro. Comeram, beberam, riram, conversaram, e falaram até sobre o que não deveriam falar. Ao findar o jantar, Vozete e Damiana retiravam a mesa morrendo de rir, como crianças, ao lembrar da infância, em especial, quando Vozete apertou carinhosamente um passarinho no quintal de sua casa. O pássaro era uma beija-flor, fascinante de lindo com suas penas coloridas, predominantemente amarela, com seu bico afilado, ao qual pegara enquanto o beija-flor bebia água. Foi uma ação rápida (In memoriam). Terminaram de arrumar a cozinha e elas decidiram tomar um café com pão de queijo, Vozete portando, continuou na cozinha a fazer o de comer, como sempre, sussurrando suas cantigas. A doce velhinha ouviu um forte barulho da gata safada, que estava no siu, acompanhado de um ruído no piso de madeira da casa, ela foi no banheiro e voltou a cozinhar. O barulho parava, voltava, parava, voltava, e ela por sua vez, já estava incomodada com isso. Além do café e do pão de queijo, Vozete preparou um doce de coco gelado com amendoim, igual como Damiana fazia quando mais novas, também, a única coisa que ela sabia fazer.
            Já preparados ela chegou na sala, o velhote estava abafado, desarrumado, ela preocupou-se com sua saúde e não permitiu que ele comesse dos petiscos. Damiana, voltando do banheiro, se arrumou para quando fosse embora, sentou-se no sofá, tomaram café, comeram o pão de queijo, Damiana comeu o doce e depois morreu. Foi uma ação rápida (In memoriam). Ao pegar a bolsa do presunto, Vozete encontrou uma foto antiga de seu marido com Damiana, atrás dizia “Eu sempre te amei.”.
Ela disse: - Que Deus a tenha, Daminha!

E depois viveram felizes para sempre. Velhos. Casados há mais tempo do que o mundo foi criado. Eram felizes sim, felizes, velhos e casados.

- Mariane Lima

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