DOCE (conto)
Era uma vez ... dois velhos.
Casados há mais tempo do que o mundo foi criado. Eram felizes sim, felizes,
velhos e casados. Viviam numa casa sombria, triste, empoeirada, cheia de plantas
sobre a telha, tinha um gata safada, pequenos roedores e alguns parasitas que
já eram considerados da família. Eles se conheceram quando ela estava doente,
em juventude, numa clínica, foi amor à primeira vista. Sua vida toda foi um em
função do outro, iam dormir juntos, Vozete tricotava e ele segurava o barbante,
Vozete lavava e ele enxugava, ele trocava a lâmpada Vozete segurava a escada
para que ele não caísse, eram um cuidado que só. O que ele dizia era que quando
novo já trabalhou de tudo, pedreiro, padeiro, atleta, patinador de gelo e até
fez uns bicos informais como médico numa clínica psiquiátrica. Já ela, nunca
estava em casa de tão doente que ficava. Eles tinham filhos, tinham amigos e animais
mas todos foram embora exceto eu e uma velha amiga de Vozete.
Damiana, amiga da velha senhora, em sua juventude era
linda, lábios carnudos, nariz largo, cabelos longos, negros e sedosos, típicos
de descendentes de índios, negros e portugueses, pele clara, rígida, corpo
sarado com curvas de deixar qualquer um babando em seus pés. Mesmo com o passar
dos anos, a amiga da velha senhora tinha continuado belíssima, exceto seus seios,
um pouco murchos, mas nada que um sutiã não suspendesse. Elas se conheceram
ainda na infância mas pouco se viam, contudo, quando viam-se, era uma alegria
retada, brincavam juntas, comiam juntas, tomavam banho juntas, até deram seu
primeiro beijo juntas com dois garotinhos do 6º ano. Na juventude, com seus 18
anos, a velha senhora, que anteriormente era uma jovem senhorita, conheceu o
senhor ao qual veio a ser seu marido, apresentou a sua amiga e ficaram felizes,
pois, uma delas casaria. A velha senhora passou anos fora, com isso a relação
entre elas foi cortada pela distância, algumas décadas depois Vozete voltou,
com seu marido e filhos a fim de rever sua amiga, que se tonara uma velha.
Na sexta-feira santa, que de santa só tem o nome, a doce
velhinha deu um jantar para seus filhos e a amiga do casal. Fizeram uma comida
de lamber os beiços, arroz branco, caruru, vatapá, feijão fradinho, frango
cozido, moqueca de peixe e um vinho do mais pior que existe, São Jorge,
daqueles que é tiro e queda. Vestido branco, encardido e uma sandália gasta
ornamentava a Vozete, seu marido, sempre fino e elegante trajava-se com um
paletó preto, blusa branca, gravata borboleta vermelha, sapatos pretos
brilhantes e um relógio de ouro, oh mulher boa, fazia questão de deixar o seu
velhinho um gato. O jantar fora marcado para ás 19:00, ninguém chegou, mas já
sabemos que ninguém chega cedo. Passou-se 19:30; 19:50; 20:00; 20:10 e ninguém
chegou ainda, logo após a campainha tocou, foi Damiana.
A mesa de jantar era comprida, como não havia muitos
convidados, todos sentaram-se próximos, o velhote no centro, Vozete em um lado
e Damiana no outro. Comeram, beberam, riram, conversaram, e falaram até sobre o
que não deveriam falar. Ao findar o jantar, Vozete e Damiana retiravam a mesa
morrendo de rir, como crianças, ao lembrar da infância, em especial, quando
Vozete apertou carinhosamente um passarinho no quintal de sua casa. O pássaro
era uma beija-flor, fascinante de lindo com suas penas coloridas,
predominantemente amarela, com seu bico afilado, ao qual pegara enquanto o beija-flor
bebia água. Foi uma ação rápida (In memoriam). Terminaram de arrumar a cozinha
e elas decidiram tomar um café com pão de queijo, Vozete portando, continuou na
cozinha a fazer o de comer, como sempre, sussurrando suas cantigas. A doce
velhinha ouviu um forte barulho da gata safada, que estava no siu, acompanhado
de um ruído no piso de madeira da casa, ela foi no banheiro e voltou a
cozinhar. O barulho parava, voltava, parava, voltava, e ela por sua vez, já
estava incomodada com isso. Além do café e do pão de queijo, Vozete preparou um
doce de coco gelado com amendoim, igual como Damiana fazia quando mais novas,
também, a única coisa que ela sabia fazer.
Já preparados ela chegou na sala, o velhote estava
abafado, desarrumado, ela preocupou-se com sua saúde e não permitiu que ele
comesse dos petiscos. Damiana, voltando do banheiro, se arrumou para quando
fosse embora, sentou-se no sofá, tomaram café, comeram o pão de queijo, Damiana
comeu o doce e depois morreu. Foi uma ação rápida (In memoriam). Ao pegar a
bolsa do presunto, Vozete encontrou uma foto antiga de seu marido com Damiana,
atrás dizia “Eu sempre te amei.”.
Ela disse: - Que Deus a
tenha, Daminha!
E depois viveram
felizes para sempre. Velhos. Casados há mais tempo do que o mundo foi criado.
Eram felizes sim, felizes, velhos e casados.
- Mariane Lima
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